quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Os Carvoeiros




Documentário de 1999 dirigido por Nigel Noble (inglês ganhador do Oscar de melhor documentário por Close Harmony em 1981) começa levantado algum debate antes mesmo de tomarmos contato com o filme em si. “Os Carvoeiros” é um filme brasileiro?

Um filme brasileiro seria aquele falado em português, produzido e comercializado por profissionais brasileiros no Brasil (relativamente seria isso).
Mas não é isso que acontece nesse caso. O filme é falado em português sim, trata de um tema brasileiríssimo sim: o desmatamento de florestas e trabalho sub-escravo (e tudo o que vem antes e depois disso; educação deficiente ou nula, pobreza extrema, etc etc...), mas é dirigido por um inglês e sua distribuição e exibição no Brasil foi praticamente nula, não houve lançamento em salas comerciais se restringindo apenas a alguns festivais, também não há disponível em DVD para compra ou locação (mas você consegue comprá-lo facilmente pelo amazon.com ou qualquer outro site fora do Brasil). Fora isso passou no Canal Brasil (que é TV fechada, um canal que faz parte de uma grade especial de programação, isso quer dizer que se você tem o pacote básico da TV por assinatura não tem acesso a esse canal). Resumindo, pouquíssimos brasileiros viram esse filme. Eu baixei a minha cópia da net, sem culpa, baixe você também!

Mas sinceramente acho essa discussão uma banalidade, o importante é que esse filme existe. De qual país ele leva a bandeira é completamente irrelevante (para determinados fins, claro!). Quando se cogitou uma possível nomeação ao Oscar em 2000 era o nome Brasil que estava em jogo, mas se ganhássemos (!) talvez soasse um pouco falso. Ou não, pois há muito do trabalho de José Padilha e Marcos Prado, sinceramente, nem sei o que esse Nigel fez, o trabalho desses brasileiros é muito mais perceptível num 1° momento.

Primeiramente porque foi através do trabalho fotográfico de Marcos Prado que esse projeto se fez existir. Marcos Prado trabalha o drama desses carvoeiros desde 1991, fazendo um documento fotográfico vencedor de importantes prêmios internacionais. Conseguiu terminá-lo a tempo de exibi-lo no ECO 92 no Rio, onde ganhou repercussão internacional. Quem não gosta de fotos em p/b de gente feia, suja e pobre belamente enquadrada?

E tem também o trabalho de José Padilha que depois faria Ônibus 174 e Tropa de Elite juntamente com Marcos. Está lá todo o caso de injustiça social e também um outro fator muito importante visto na última obra de Padilha; o consumo (in)consciente, neste caso o consumo das florestas na região central do Brasil, em Tropa de Elite é o consumo de drogas. Boa parte daqueles trabalhadores sabe que estão fazendo a coisa errada desmatando aquela quantidade enorme de árvores aumentando o desequilíbrio ambiental, mas infelizmente foi só o que sobrou para sustentarem suas famílias, se hoje extinguirem essas atividades essas pessoas morreram de fome.

E Nigel, onde fica? Bem... ele não é brasileiro mas com certeza é um homem de cinema, uma pessoa muito sensível que demonstra sua idéias muito mais através de imagens do que palavras. Fica claro qual é o papel de Nigel logo na 1ª seqüencia do filme, imagens de mãos negras segurando e amarrando pesadíssimas correntes de aço em tratores, correntes que logo irão destruir um pedaço enorme da mata, as cenas de devastação são deprimentes, Nigel opta por takes mais fechados para mostrar a queda das árvores, o efeito disso é perturbador e angustiante. Poético, como não?!

“The Charcoal People of Brazil” (seu título internacional) mostra a vida miserável desses carvoeiros, eles trabalham a vida toda ganhando muito pouco, quase nem tem o necessário para comer, crianças ajudam os seus pais e deixam de ir para a escola, se há escola. Onde há só tem algum aluno sentado na carteira quando os pais dessas crianças ganham alguma ajuda do governo que dá 50 reais (em 1999) por mês para cada criança permanecer na sala de aula. Mas é óbvio que é uma educação deficiente, um bom exemplo é quando uma das crianças é perguntada sobre o que queria ser quando crescer, ela respondeu sem a menor dúvida “Quero ser carvoeiro como meu pai!” o entrevistador perguntou “Por quê?” a criança respondeu “Para ganhar dinheiro!”.

Claro que é por dinheiro! Eles não queimam a floresta por que são pessoas do mal, ou por que acham tudo isso muito divertido. Existe um número enorme de siderúrgicas no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que precisam desse carvão vegetal para produzir um tipo específico de ferro chamado “ferro-gusa” que é exportado para toda a Europa, EUA e Japão. O Brasil é o único país do mundo que produz ferro-gusa a partir de carvão vegetal, o resto do mundo produz esse ferro a partir de carvão mineral, resultando num produto de menor qualidade.

E agora, com a escassez de matéria-prima naquela região essas siderúrgicas estão se mudando para a Amazônia. Que ótimo!
Se bem é verdade que hoje 67% da madeira utilizada para a produção de carvão provem de áreas reflorestadas, mas esse também é um problema tão grave quanto o da derrubada da mata original; a monocultura da árvore de eucalipto usado nessas plantações impede o crescimento de qualquer outra forma de vida nessa região, criando um impacto ambiental tão profundo quanto o desflorestamento.

E é esse o apelo que o filme faz, essa é a sua razão de existir, mostrar ao resto do mundo que algo precisa ser feito nesses lugares, tanto para com a floresta quanto com aquelas pessoas. E talvez essa observação responda aquela pergunta lá no começo. Sobre a má distribuição do filme aqui no Brasil.

“Os Carvoeiros” é um filme pra gringo ver (imagens belíssimas de miséria, trilha sonora idem). Esses temas de pobreza absoluta não nos comovem mais, ou talvez não comovam tanto, ou não o necessário. Estamos vacinados quanto a isso pois vemos o tempo todo na tevê ou nos jornais. Um filme como esse pouco acrescentaria a nós. Analisando dessa forma “Os Carvoeiros” se assemelha à “Iracema – uma transa amazônica”, filme do anos 70, financiado por uma televisão Alemã mostrava a floresta amazônica sendo devastada pelas queimadas, “Iracema” causou muita polêmica quando foi lançado pois foi a 1ª vez que imagens da Amazônia pegando fogo correram o mundo abrindo os olhos dos gringos para problemas ecológicos, sociais e econômicos que estavam acontecendo no Brasil. Só que “Iracema” é um filme bem diferente, ele tem um formato inusitado e livre; meio documentário, meio ficção meio teatro farsa com o Paulo Cezar Peréio no papel principal, o filme sugeria debates nas mais diferentes âmbitos de discussão.

Mas analisando os dois filmes tem algumas perguntas que não querem calar:

Qual a força do cinema perante a economia e o consumo mundial sobre assuntos ecológicos?
Será que ele pode mudar alguma coisa? Será que ele pode mudar alguém ou um determinado grupo de pessoas a ponto de fazer parar com as queimadas na Amazônia?
Será que se não houvesse “Iracema” nos anos 70 a Floresta Amazônica estaria pior?

5 comentários:

Vanderlei Oliveira disse...

Oi Wesley, só queria informá-lo de que citarei uma parte do seu texto em meu blog. Para qualquer objeção favor entrar em contato.
Parabéns pelo texto!

Wesley disse...

capaz, de boa.
meus textos estão aí pra isso!

vlw e obrigado pelo elogio :D

Dagmar Martins de Abreu disse...

Assisti GARAPA duas vezes em Salvador onde resido atualmente. As pessoas levantavam e saia. Perguntei a uma pessoa ligada a cinema e esta falou que as pessoas não gostam de assistir a MISÉRIA.
É lamentável,sendo nós os CONSTRUTORES da mesma,não e?
Nós classe MÉRDIA estudamos, portanto acreditamos termos maiores conhecimentos.......para que????o que fazemos com eles???????que conhecimentos adquirimos nas escolas...na vida.....nas universidades???????????? ESTES FILMES PODERIAM SER ESTUDADOS NAS UNIVERSIDADES para que os estudantes pudesse conhecer nossa REALIDADE CRUA a real vidas de uma grande parte de BRASILEIROS.

Dagmar disse...

Desculpem os erros de concordância,fico emocionadíssima ao deparar-me com o termo MISÉRIA,isto aconteceu após trabalhar com eles. DESCOBRI QUE A MESMA TEM NOME....ROSTO......E SONHOS......
Dagmar

Silvio Gomes Campos disse...

olá galera gostaria de saber onde eu posso encontrar este filme, algum site para baixar ou assistir. me mandem um email. Sou professor e gostaria de passar em sala meu email é silviogom@gmail.com. me mandem o link por favor. obrigado!